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Ciência

A ordem pública do tempo

Apesar de totalmente mecânicos, os relógios do período moderno não esqueceram a sua antiga dependência do astro-rei.

A substituição do relógio de sol por uma máquina que não dependia da luz do astro-rei permitiu um novo rigor ao registo do tempo civil e religioso. Acionados pelos pesados mecanismos de ferro, os sinos tocavam as horas canónicas – as matinas, a prima, a terça, a sexta, a nona, as vésperas e completas – e regravam o cumprimento das orações em mosteiros e conventos.

Essa dimensão pública também servia ao poder civil, em grande parte devido à possibilidade de combinarem as funções de relógio com as de calendário astronómico. O relógio na Praça de São Marcos em Veneza, que Francisco de Holanda representou no Álbum dos Desenhos das Antigualhas, é provavelmente um dos mais famosos da Europa. Esse relógio, associado ao poder da República, revela a ordem do universo e ainda hoje marca a hora, o dia do mês, a fase lunar e a passagem do sol pelas constelações do zodíaco, num conjunto concebido pelos irmãos Ranieri da Reggio, em 1496.

Francisco de Holanda, Horologivm Venetiarvm in Platea Divi Marci, Álbum dos Desenhos das Antigualhas (1538-1540).
 Francisco de Holanda, Horologivm Venetiarvm in Platea Divi Marci, Álbum dos Desenhos das Antigualhas (1538-1540).

Em Portugal, o relógio da torre do Paço da Ribeira das Naus, construído no reinado de D. Manuel, foi o principal regulador da vida quotidiana da Baixa Lisboeta. Em 1628, depois de um pedido a Filipe III, foi a vez do relógio da Sé de Lisboa receber o seu mostrador, adaptando este elemento horológico aos relógios de torre antigos.

O franciscano Frei João da Comenda, que viveu na segunda metade do século XV, é a primeira referência conhecida de alguém que se dedicou à construção de relógios em território português. Sabe-se que fabricou cerca de doze relógios, sendo que nove foram para os vários conventos da sua ordem, dois para mosteiros jerónimos e um para o convento da Ínsua. Estes novos mecanismos demonstram que, nos finais do século XV, o relógio era um instrumento indispensável para regular a vida monástica. A colocação na torre, visível para todos, publicava a ordem para a sua área de influência rural ou urbana.

Essas mesmas características estavam presentes no relógio da Igreja da Graça, em Santarém. Colocado na torre sineira do convento dos Eremitas Calçados de Santo Agostinho, durante as campanhas de obras dos finais do século XVI, o relógio passou a ostentar um belo mostrador em azulejo, com um único ponteiro, que hoje se encontra à guarda do Museu Municipal da mesma cidade.

O grande mostrador forma um quadrado composto por 22 x 22 azulejos, em tons de azul, branco, amarelo e manganês. Possui um anel delineado por tripla circunferência, com as horas em numeração romana intercaladas por um polígono. Ao centro, um círculo azul inscreve a rosa dos ventos, relembrando uma representação do astro-rei como referência geográfica e temporal. Nos cantos exteriores observa-se a representação dos quatro ventos cardeais através da figuração de cabeças de criança que sopram, formando nuvens.

A cercadura de óvulos que delimita o painel é semelhante à que se encontra no revestimento azulejar da capela de São Roque da igreja homónima, em Lisboa, uma obra de Francisco de Matos, de 1584. Talvez tenha sido esta circunstância a determinar a datação do conjunto por volta de 1585, como proposta por João Miguel dos Santos Simões. É de assinalar que a cercadura de óvulos do painel do fontanário de Alcácer do Sal, datado de 1597, é igualmente semelhante. Trata-se provavelmente de um trabalho da oficina lisboeta de João e Filipe de Góis, cuja atividade teve continuidade até ao final do século XVI.

Mostrador da Igreja da Graça de Santarém (c. 1585-1600). Nuno Moreira © Museu Municipal de Santarém Igreja de São João de Alporão.

Semelhante ao mostrador de Santarém, mas já do século XVIII e a azul e branco, é o mostrador que integra a coleção do Museu Municipal do Dr. Santos Rocha, na Figueira da Foz. Pertencia, originalmente, ao Mosteiro de Santa Maria de Seiça. Ao centro exibe uma rosa dos ventos com feições humanas personificando o sol. Nos quatro cantos exteriores ao anel observa-se, mais uma vez, a representação alegórica dos quatro ventos, através da figuração de cabeças humanas com pares de asas.

Certo é que, fosse numa torre sineira ou numa torre do relógio, a acompanhar tanto a arquitetura religiosa como a civil, os mostradores dos relógios em azulejo refletem a nova ordem pública do tempo.

Clock dial of the Santa Maria de Seiça Monastery in Figueira da Foz, 18th century. © Museu Municipal Dr. Santos Rocha.
Mostrador do relógio do Mosteiro de Santa Maria de Seiça, Figueira da Foz, século XVIII. © Museu Municipal Dr. Santos Rocha.

BIBLIOGRAFIA ESSENCIAL

BRUTON, Eric. The History of Clocks and Watches. London: Time Warner Books UK, 2002.

MARINHO, Lúcia. Guardiães do tempo: A arte da relojoaria na colecção da Casa-Museu Dr. Anastácio Gonçalves. Lisboa: Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2010. Dissertação de Doutoramento em História da Arte. Disponível em: https://repositorio.ul.pt/handle/10451/2999

MARINHO, Lúcia. “O azulejo e o tempo: os painéis cerâmicos que marcaram as horas a partir do século XVI” in ARTIS – Revista de História da Arte e Ciências do Património, n. 6, 2018, pp. 16-21.

OLIVEIRA, Fernando Correia de. História do tempo em Portugal: elementos para uma história do tempo, da relojoaria e das mentalidades em Portugal. Lisboa: Âncora, 2003.

OLIVEIRA, Fernando Correia de & MATOS, José Sarmento de. Tempo e poder em Lisboa: o relógio do Arco da Rua Augusta. Lisboa: Espiral do Tempo, 2008.

Santarém, Igreja de São João de Alporão

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