Segundo projeto do engenheiro Daniel Muller, o obelisco e chafariz do Piques foi construído em 1814, nos limites da cidade, no lugar onde principiava a estrada por onde se chegava ou partia para o interior da província. O distíco “ao zelo do bem público” aposto ao monumento manifestava as intenções do triunvirato que dirigia a cidade em sublinhar a importância da obra do canal que trazia a água do tanque Reúno para o bem-estar da população paulistana. Aproveitando o declive do terreno, a água do tanque do obelisco alimentava, um pouco mais abaixo, o fontanário que servia tanto aos viajantes quanto aos moradores locais numa intervenção semelhante aos dois obeliscos erigidos pelo vice-rei do Brasil, nas proximidades da fonte dos jacarés do passeio público no Rio de Janeiro, em 1806.

Em 1919, o então prefeito Washington Luís solicitou ao arquiteto Victor Dubugras a elaboração de um projeto de recuperação para o Largo do Piques, que, com o estabelecimento progressivo da rede ferroviária, perdera a importância estratégica para a circulação de pessoas e bens. Com um bom sentido cenográfico, o arquiteto de origem francesa, formado na Argentina, criou uma zona envolvente de escadas semicirculares, encimadas por um pórtico de colunas jónicas que servia de majestoso pano de fundo para um desafogado tanque elíptico.
A colaboração do pintor José Wasth Rodrigues (1891-1957), autor dos azulejos azuis e brancos do frontão e também dos azulejos de figura avulsa com o brasão da cidade que decoram a zona dos bancos, acrescentou uma evidente referência neocolonial ao projeto do Largo da Memória. Adoptando esse partido, nos anos imediatamente a seguir, a mesma parceria iria realizar os seis monumentos comemorativos do centenário da Independência que seriam construídos na velha estrada do Mar.
No painel de azulejos, o pintor, que fora incentivado por Monteiro Lobato a criar uma pintura apoiada nos valores tradicionais, e colaborara com o engenheiro e arqueólogo Ricardo Severo no registo dos elementos arquitectónicos luso-brasileiros, representou uma cena de costumes que se desenvolvia à volta do antigo fontanário do Piques. Com cuidado meticuloso, José Wasth reconstituiu os trajes dos tropeiros, dos soldados, dos escravos e dos cidadãos paulistas.

Para os republicanos, o programa de criação de uma arte brasileira era a única forma de garantir a coesão nacional e, ao mesmo tempo, a via certa para o progresso futuro, como, de maneira lapidar, defendeu o arquiteto Severo, na sua conferência na Sociedade de Cultura Artística, realizada em 20 de julho de 1914:
Sobre as mysteriosas lendas de velhos tempos s fundamentam as epopeias da humanidade; são essas rapsodias anticuadas que os povos entôam com enthusiasmo, no seu avanço triumphal para esse futuro ignoto, mais afastado ainda, e cada vez mais, do que aquelle passado longinquo de barbaras origens. Com essas lendas, crenças e mythos são formados os élos da cadeia sentimental que une entre si fraternalmente os homens e os povos para a constituição da patria.
Como se acreditava na evolução progressiva da sociedade e sobre a arte recaía o ônus de manter a coesão nacional, algo que, sublinhe-se, a religião já não podia e a política por si só não era capaz de fazer, forçoso era denunciar o erro dos revivalismos baseados no estilo e na história de outros povos.

Em 1920, o ainda jovem escritor Mário de Andrade, depois de uma anelada visita a Minas Gerais, também saudava com moderado otimismo, em artigos publicados na Revista do Brasil, a recriação de uma arquitetura tradicional, decalcada dos modelos barrocos luso-brasileiros, em particular a obra do arquiteto polonês Georg Przyrembel, que participaria com destaque na Semana da Arte Moderna de 1922:
Faremos para terminar uma referência toda especial ao projeto, em via de execução, do sr. Pzirembel para a futura capela de Monserrate, em Santos. O artista soube beber na fonte tradicional [e] criou um delicioso projeto onde nem faltam os azulejos, que os nossos arquitetos em tão boa hora reabilitaram.
Como no painel de azulejos do novo Largo da Memória, o registo do passado é apenas o ponto de partida para a construção de uma nova e necessária arte nacional que responda às novas exigências do presente.
BIBLIOGRAFIA ESSENCIAL
ANDRADE, Mário. A arte religiosa no Brasil. Edição crítica de Claudéte Kronbauer. São Paulo: Editora Experimento e Editora Giordano, 1993.
KESSEL, Carlos. “Vanguarda efêmera: arquitetura neocolonial na Semana de Arte Moderna de 1922” in Estudos Históricos, n. 30, 2002, pp. 110-128.
SEVERO, Ricardo. A arte tradicional no Brasil. A casa e o templo. São Paulo: Tipographia Levi, 1916

