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Ciência

Prometeu e a Física jesuíta

Em um dos painéis de azulejo das aulas do Colégio do Espírito Santo, a disciplina da Física foi comparada ao Castigo de Prometeu.

Em um dos painéis das aulas do Colégio do Espírito Santo, a Física foi comparada ao Castigo de Prometeu, um tema de enorme tradição entre os humanistas, depois de Andrea Alciato o ter associado ao ditado socrático: Quae supra nos, nihil ad nos [O que está acima de nós não é para nós]. Com esse emblema, o estudioso italiano procurou advertir os eruditos contemporâneos sobre os limites do conhecimento humano.

Num texto inspirador, o historiador italiano Carlo Ginzburg descreveu a evolução da representação dos mitos heroicos de Prometeu e Ícaro, que, a partir da cautela dos humanistas do Renascimento, passaram a ser interpretados como um símbolo vigoroso do espírito comercial e da investigação cientifica do século XVII.

O jesuíta François-Antoine Pomey, influente professor e lexicógrafo francês, foi também autor de um dicionário de mitologia clássica, o Pantheum Miticum, no qual Prometeu, o homem prudente, é justamente representado como o grande criador das artes e da civilização. Na interpretação de Pomey, tanto a águia que come o fígado quanto as correntes que prendem o corpo não são um castigo, mas uma representação do esforço constante que o herói fez como astrónomo nas montanhas do Cáucaso.

Nos azulejos de Évora, as chamas que rodeiam as montanhas, apesar da pouca conformidade com a tradição pictórica, reforçam a identificação da Física com a figura mítica de Prometeu, que roubou o fogo do céu para elevar o espírito do seu homem de barro.

Quae supra nos, nihil ad nos. Andrea Alciato. Emblemata / Les emblemes, Paris, 1584.
Quae supra nos, nihil ad nos. Andrea Alciato. Emblemata / Les emblemes, Paris, 1584.

Para realçar a mensagem, o autor do programa iconográfico acrescentou ao emblema o verso Rimando Vivit [vive na investigação]. De acordo com o dicionário do professor jesuíta Bento Pereira, o verbo latino rimor significa “buscar diligentemente, escrutinar, inspecionar” e também “cortar e quebrar”. Essa escolha de palavras constrói o contexto metafórico que compara o processo de exame científico ao dano físico causado pela ave insaciável.

Mais sutilmente, o impedimento ao conhecimento das “coisas acima de nós” tornou-se, nos azulejos do Colégio de Évora, uma lição epistemológica, onde o corpo de Prometeu é o campo natural e adequado das investigações da Física.

Physica. Aula de Física do Colégio do Espírito Santo. Grande Oficina de Lisboa. Valentim de Almeida e Sebastião Gomes Ferreira, c. 1745. Fotografia © Teresa Verão.

No contexto do programa de imagens da sala de aula do Colégio de Évora, essa afirmação é essencial para defender o carácter “físico” das forças ocultas presentes em novas experiências e investigações de fenómenos como o magnetismo e o vácuo, que, por invisíveis, se poderiam considerar supranaturais e, portanto, estranhos ao reino das Ciências Naturais.

BIBLIOGRAFIA ESSENCIAL

BOLLAND, Johannes; TOLLENAERE, Jean de; HOSSCHE, Sidronius de; WALLE, Jacques van de & FRUYTIERS, Philip. Imago Primi Saeculi Societatis Iesu: a prouincia Flandro-Belgica eiusdem Societatis repraesentata. Antuérpia: Balthasaris Moreti, 1640.

GINZBURG, Carlo. “High and Low: The Theme of Forbidden Knowledge in the Sixteenth and Seventeenth Centuries” in Past & Present, 1976, n. 73, pp. 28-41.

MENDEIROS, José Filipe. Os azulejos da Universidade de Évora. Tiles of the University of Evora. Évora: Universidade de Évora, 2002.

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