Categories
Arte

Azulejos holandeses em Portugal

Apesar da extensa produção de azulejos, Portugal importou azulejos holandeses de meados do século XVII até às primeiras décadas do século XVIII.

Apesar da extensa produção de azulejos, com a sua impressionante variedade de tipologias, Portugal importou azulejos dos Países Baixos de meados do século XVII até às primeiras décadas do século XVIII. A aplicação de princípios comerciais mercantilistas sob o reinado de D. Pedro II conduziu a uma fase de prosperidade, pelo que as proibições de importação de azulejos holandeses, impostas em 1687, foram levantadas em 1698.

Os holandeses produziam azulejos cuja qualidade técnica e artística satisfazia as exigências de requinte da classe dominante portuguesa. Por essa razão, só podem ser encontrados em edifícios religiosos e palácios aristocráticos. No entanto, a quantidade desses azulejos limitou-se a menos de um por cento do montante total utilizado nos edifícios no período.

Joseph in Egypt. Gospel side © WJ
Joseph no Egito. Lado evangelho. Fotografia © WJ.

Há provas documentais de que os ateliers de Amesterdão, Harlingen, Roterdão e Utrecht exportaram azulejos a Portugal. Um dos exemplos mais marcantes pode ser encontrado na igreja do Santuário de Nossa Senhora da Nazaré. A opção pela importação de azulejos pode ser vista como resultado do crescimento económico e da troca de bens luxuosos propiciado por esse desenvolvimento. Os azulejos foram negociados através de Pedro Brukhuis, um agente comercial sediado em Lisboa.

O grande especialista em história da azulejaria João Miguel dos Santos Simões, no seu livro Les carreaux céramiques hollandais au Portugal et en Espagne, chamou a atenção para os azulejos holandeses na Nazaré e publicou um documento comprovando a recepção dos azulejos no porto de Lisboa.

Putti decorate a sculpture. Gerard de Lairesse, 1694. © Rijksmuseum.
Putti a decorar uma escultura. Gerard de Lairesse, 1694. © Rijksmuseum.

A obra, assinada por Willem van der Kloet (1666-1747), foi feita na sua olaria De Twee Romeinen, no Prinsengracht, em Amesterdão. Os livros de contas da Real Casa de Nossa Senhora da Nazaré indicam que os azulejos figurativos foram pintados por volta de 1708-1709.

Do lado do Evangelho, o painel de azulejos, sob o arco, descreve a glória de José, um modelo de sabedoria e castidade. A história do patriarca pode ser encontrada no Tanakh judeu, na Bíblia cristã, e também no Corão islâmico. A 12ª sura do Corão tem o nome do profeta Yusuf. O texto é muito semelhante ao texto bíblico no Livro 1 de Moisés (Gênesis) e à descrição da vida do patriarca José no Tanakh.

As gravuras de Gerard de Lairesse, impressas em Amesterdão em 1694, sob o título Leodiensis pictoris opus: Elegantissimum, Amstelaedami ipsa manu tam aeri incisum, quam inventum et per Nicholaum Visscher cum privilegio ordin general Belgii foederatium, serviram de inspiração para Van der Kloet elaborar o painel que retrata meninos a brincar num jardim com esculturas para acompanhar as cenas da história de José no Egito.

Com o mesmo propósito dos episódios da história de José, o painel do lado da epístola descreve as virtudes do rei israelita David, chamado Dawüd no Corão. A vitória de David sobre Golias é mencionada na sura 2, versículo 252, e nas suras 21 e 38 ele é descrito como um justo governador e juiz. Há semelhanças interessantes na biografia de David na Bíblia, no Corão e no Tanakh.

No sul e no norte do transepto, acima das portas, há dois painéis com cenas dos livros dos profetas: Jonas é atirado ao mar e Jonas é cuspido pelos peixes.

King David. Epistle side © WJ
Rei David. do lado da epístola. Fotografia © WJ.

O fabricante de azulejos Willem van der Kloet fazia parte da melhor sociedade de Amesterdão. Os seus clientes pertenciam à classe mais abastada, comerciantes, agentes imobiliários ou a organizações políticas e sociais relevantes. No entanto, Kloet deveu grande parte de sua prosperidade à exportação de grandes quantidades de azulejos para Portugal.

Com os conjuntos de Nossa Senhora da Conceição dos Cardais, pintados por Jan van Oort, e a Igreja do Convento de Madre de Deus, também por Willem van der Kloet, os azulejos da Nazaré são um dos melhores exemplos da enorme qualidade da produção holandesa desse período.

BIBLIOGRAFIA ESSENCIAL

SIMÕES, João Miguel dos Santos. Les carreaux céramiques hollandais au Portugal et en Espagne. Haia: Martinus Nijhoff, 1959.

MARGGRAF, Rainer. Os azulejos de Willem van der Kloet em Portugal – Willem van der Kloet tile pictures in Portugal. Lisboa: Electa, Museu Nacional do Azulejo, 1994.

Nazaré, Santuário da Nossa Senhora da Nazaré

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s