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O riso do mundo dos macacos

Nos painéis de azulejos, os macacos, conhecidos por imitar o comportamento humano sem realmente compreender o que fazem, submetem os gatos aos constrangimentos da vida em sociedade.

Nos bancos que contornam o tanque de um dos jardins da Quinta dos Marqueses de Fronteira dispõem-se dois painéis de azulejos com representações de singeries. Já estavam aqui colocados em 1669, quando da visita de Cosimo III de Medici, o Grão-duque da Toscânia, e situam-se no terraço reservado às mulheres, com a casa de fresco, a fonte de Vénus e um desaparecido labirinto de limoeiros.

Nos painéis de azulejos, os macacos, conhecidos por imitar o comportamento humano sem realmente compreender o que fazem, submetem os pobres gatos aos constrangimentos da vida em sociedade. São, obviamente, uma imagem satírica, e, desde o final do século XVI, foi frequente a utilização da figura de macacos em panfletos de combate político e religioso como forma de vituperar os opositores de ambos os lados das barricadas católicas e protestantes.

Cirurgião aprovado, c.1669. Quinta dos Marqueses de Fronteira © Teresa Verão
Cirurgião aprovado, c. 1669. Quinta dos Marqueses de Fronteira. Fotografia © Teresa Verão.

Nos azulejos, num tom mais divertido, o professor, acompanhado por um grupo de músicos ao clavicórdio, pratica exercícios de canto com seus alunos felinos. Do outro lado, o barbeiro corta os bigodes de um gato, enquanto o cirurgião trata o pé ferido de um outro macaco. Para sublinhar as intenções irónicas da representação foram acrescentados os dizeres “Cirurgião aprovado” e “Eu sou o mestre do solfejo”.

Os pintores de azulejo seguiram duas gravuras realizadas a partir da obra de David Teniers II (1610-1690) que, desde meados do século XVII, foi um dos mais conhecidos divulgadores desse novo género de pintura pela Europa erudita.

The Barber-Surgeon's Shop, Quirin Boel after David Teniers (II), 1635-1668. © Rijskmuseum.
The Barber-Surgeon’s Shop, Quirin Boel after David Teniers (II), 1635-1668. © Rijskmuseum.

Neste caso, a transformação dos homens em animais permite uma sátira à autoridade profissional dos mestres que expunham a elite social a situações desagradáveis e penosamente aborrecidas. Fazem-no, assinalando que, no fundo, apesar dos conhecimentos técnicos, não pertencem ao mundo da sociedade polida. Com seu tom satírico, são também um convite ao riso e uma celebração das boas horas livres, sem constrangimentos sociais, passadas no jardim.

BIBLIOGRAFIA ESSENCIAL

MONTEIRO, João Pedro (ed.). Um gosto português. O uso do azulejo no século XVII. Lisboa: Museu Nacional do Azulejo, Athena, 2012. ISBN 978-989-31-0030-1.

Lisboa, Quinta dos Marqueses de Fronteira

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