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Uma assinatura do pintor Gabriel del Barco

O nome surge abreviado, como acontecia com frequência nas assinaturas do pintor, seguido da letra F., inicial do verbo Fecit ou Fez (o autor usou o latim e o português), assim indicando a autoria, e o ano de 1700.

Gabriel del Barco foi um dos mais importantes pintores do período barroco e, em particular, do designado período de transição (1675-1700), desempenhando um papel fundamental no contexto das principais alterações que se fizeram sentir no final do século XVII na azulejaria portuguesa: a pintura quase exclusivamente realizada a azul e branco, tirando partido das características do suporte, e executada por pintores com uma formação mais erudita, que trabalhavam em outras modalidades artísticas, como a pintura de cavalete ou de mural; e a narratividade presente nos extensos programas decorativos que revestem sobretudo os interiores dos templos e outros espaços religiosos, mas também os palácios.

Nascido em Sigüenza, Espanha, e aí baptizado a 6 de Dezembro de 1648, instalou-se em Lisboa com 20 anos, onde se dedicou primeiro à pintura a fresco e, mais tarde, à pintura sobre azulejo (sobre o autor ver a biografia no Az Infinitum). Ao longo da sua carreira azulejar conhecida, de pouco mais de dez anos, Gabriel del Barco destaca-se também pelo elevado número de obras assinadas e datadas, num total de dezassete! A mais antiga que se conhece remonta a 1689 e encontra-se na capela-mor da igreja do Convento do Espinheiro, em Évora, e as últimas são precisamente do ano de 1700, na igreja do Convento dos Lóios, em Arraiolos, na Igreja de São Tiago, em Évora, em uma casa na área da Rua de São Bento, em Lisboa e nesta capela que hoje nos ocupa (sobre o tema das assinaturas em azulejo ver  o website Signatures and authorships marks on Portuguese azulejos.

O programa dedicado a São João Baptista, revestindo a capela com a mesma invocação numa quinta particular do Alto Alentejo, havia sido dado a conhecer por Teresa Saporiti no seu livro intitulado Azulejaria do Distrito de Portalegre, publicado em 2006. As fotografias de Raul Ladeira revelavam alguns detalhes das composições principais e do embasamento deste revestimento fabuloso, mas o texto referia apenas o ano de 1700, sem transcrever ou reproduzir a assinatura que, de acordo com informação directa da autora, à época se encontrava escondida atrás de um móvel muito pesado.

A fotografia que agora publicamos torna possível comprovar a autoria e analisar com maior detalhe a assinatura, no contexto de abordagens mais amplas, abrindo ainda caminho para um estudo mais aprofundado que o conjunto merece (na ausência de comprovação formal, a obra não foi incluída no website Signatures and authorships, agora actualizado).

O nome surge abreviado, como acontecia com frequência nas assinaturas do pintor, seguido da letra F., inicial do verbo Fecit ou Fez (o autor usou o latim e o português), assim indicando a autoria, e o ano de 1700. Todavia, e ao contrário do habitual, a assinatura exibe dois “B” maiúsculos, um junto ao “G” idêntico aos restantes escritos pelo pintor e eventualmente com um “co” ou um “o” sobrescritos, e o segundo mais afastado. 

Capa do livro Azulejaria do Distrito de Portalegre de Teresa Saporiti
Capa do livro Azulejaria do Distrito de Portalegre de Teresa Saporiti.

A capela, de dimensões muito reduzidas, apresenta uma organização simples, estruturando-se em dois níveis de leitura delimitados por cercadura de flores com enrolamentos vegetalistas que se articulam com máscara nos cantos e concha nos centros. Sobre um embasamento com meninos a brincar, que se encontra em várias obras de Gabriel del Barco (nos Lóios, em Arraiolos, há composições exatamente idênticas a estas), duas secções de maiores dimensões ocupam as paredes laterais, com a representação do Baptismo de Cristo do lado do Evangelho e a Decapitação de São João Baptista do lado da Epístola. É nesta última que se observa a assinatura, na lateral do que parece ser um baú, mas junto a uma área truncada pela abertura de uma janela para o corredor, única fonte de luz deste espaço (com azulejos desarticulados numa das paredes do próprio vão).

De cada um dos lados da porta principal figura São João Baptista no deserto, sentado e com a cruz de canas num dos braços, alimentando o cordeiro, do lado do Evangelho e, do lado oposto, em pé, com o cordeiro junto a si, e segurando a cruz onde é visível a filatéria com a inscrição “ECCE AGNUS DEI” e parte do resto da frase, que continua “ecce qui tollit peccata mundi”. Sobre a porta, dois vasos floridos com aves e alguns azulejos de figura avulsa. Junto ao altar observa-se, numa altura de dez azulejos (incluindo a cercadura) um anjo ajoelhado segurando uma coroa de flores. Ambos foram muito truncados pelo altar, sobretudo o do lado da Epístola. 

Assinatura de Gabriel del Barco © Rosário Carvalho
Assinatura de Gabriel del Barco. Fotografia © Rosário Carvalho.

O Baptismo de Cristo é muito semelhante ao que Gabriel del Barco havia pintado, em 1691, para uma capela com a mesma invocação, na Quinta de Nossa Senhora da Conceição, em Barcarena (aliás, toda a organização do revestimento é próxima). Ambas reproduzem a gravura de Cornelis Cort (1533-1578), segundo Francesco Salviati (1510-1563), com o mesmo tema, embora a composição de Portalegre seja mais fiel à fonte gravada.

Por sua vez, a decapitação de São João Baptista não deixa de recordar alguns dos episódios da Igreja de São Victor, em Braga. Neste episódio, São João, já decapitado e com o sangue a jorrar abundantemente do pescoço, encontra-se caído por terra, apoiado nos joelhos e nos braços, tendo à frente a sua cruz com a filactéria e a mesma inscrição já mencionada. O carrasco segura a cabeça pelos cabelos, estendendo-a a Salomé que, com uma bandeja, é acompanhada por duas outras mulheres. A pintura, tal como os rostos, são muito característicos do pintor, o mesmo acontecendo com as crianças a brincar com animais e a tocar instrumentos musicais, que remetem para os revestimentos holandeses das igrejas do Convento dos Cardaes e da Madre de Deus, ambas em Lisboa, e que conheceram grande fortuna na obra de Gabriel del Barco, como já referimos. O azulejo é um património integrado e é como tal que deve ser preservado, com os diálogos que estabelece com a envolvente, mesmo que modificados ao longo dos séculos. Essas alterações são hoje memórias de um passado mais ou menos longínquo e contam as suas histórias, conferindo ao azulejo um contexto sem o qual perde boa parte do que o transforma numa das artes mais características do património cultural português. Em épocas de incerteza, as mais perigosas para o património, importa continuar a chamar a atenção para a importância de manter os azulejos na arquitectura: é imperioso que tal aconteça para que as gerações vindouras possam continuar a usufruir do azulejo na sua plenitude.  


BIBLIOGRAFIA ESSENCIAL

CARVALHO, Rosário Salema de. “A pintura do azulejo em Portugal [1675-1725]: autorias e biografias – um novo paradigma”. Tese de doutoramento, Universidade de Lisboa, 2012.

CARVALHO, Rosário Salema de. “Gabriel del Barco: la influencia de un pintor español en la azulejería portuguesa (1669-1701)”. Archivo Español de Arte 84, n. 335 (2011): 227–44.

CARVALHO, Rosário Salema de, and Francisco Queiroz. “Signatures and authorial marks on Portuguese Azulejos”. GlazeArt2018 International Conference Glazed Ceramics in Cultural Heritage, editado por Sílvia Pereira, Marluci Menezes, and José Delgado Rodrigues, 91-109. Lisboa: Laboratório Nacional de Engenharia Civil, 2018.

FLOR, Susana Varela & FLOR, Pedro. Gabriel del Barco y Minusca pintor: elementos para uma visão prosopográfica da Lisboa Barroca”. La Sevilla lusa -La presencia portuguesa en el Reino de Sevilla durante el Barroco / A presença portuguesa no Reino de Sevilha no período Barroco,  coordenado por Fernando Quiles, Manuel Fernández Chaves, and Antónia Fialho Conde, 252-287. Sevilha: E.R.A. Arte, Creación y Patrimonio Iberoamericanos en Redes / Universidad Pablo de Olavide and CIDEUS / Universidad de Évora, Portugal, 2018.  


 

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