Categories
História

A primazia histórica do Arcebispado de Braga

No coro alto, a representação de D. Paterno, bispo de Braga, que presidiu um sínodo episcopal em Toledo no ano de 397, é o tema central que define o objetivo geral das imagens da Igreja de São Vítor.

Entre as primeiras obras de Gabriel del Barco, destacam-se os painéis de azulejos pintados para a Igreja de São Vítor de Braga. O edifício, iniciado em 1686, com projeto do engenheiro militar Miguel Lescole e patrocínio do arcebispo D. Luís de Sousa, foi uma das primeiras igrejas projetadas para receber uma cobertura completa de azulejos figurativos no interior.

Não conhecemos as indicações que foram transmitidas ao pintor, mas a escolha da obra Primeira Parte da História Ecclesiastica dos Arcebispos de Braga e dos Santos e Varoens Illustres que florescerão neste Arcebispado, de D. Rodrigo da Cunha, como fonte principal do programa, permite-nos acompanhar como a narrativa literária foi utilizada para construir o discurso das imagens.

Embora inovador como projeto iconográfico, o programa decorativo é relativamente simples e os azulejos cobrem todas as paredes do templo, retomando uma solução tradicional utilizada pelos mestres ladrilhadores do século XVII. Os painéis formam uma galeria de santos pouco conhecidos, mas cuja hagiografia, por nascimento e munus pastoral, está associada à Braga. É, ao mesmo tempo, uma história e uma exaltação das virtudes cristãs do arcebispado.

São Vítor se recusa a participar nos festivais pagãos, Gabriel del Barco, c. 1691.
São Vítor se recusa a participar nos festivais pagãos, Gabriel del Barco, c. 1691.

Para a capela-mor, criou-se um ciclo narrativo mais desenvolvido, com episódios da vida do mártir romano São Vítor e exposição do mesmo tema em dois painéis distintos: o Festival de Ceres, à esquerda, e a recusa de São Vítor em participar nas cerimónias pagãs, no lado oposto.

Em posição de destaque, no coro alto, encontra-se uma representação monumental de D. Paterno, bispo de Braga, presidindo o Concílio de Toledo em 397, um tema que procura demonstrar a ascendência hierárquica da cidade portuguesa sobre a espanhola. Esse é o tema central que define o objetivo geral das imagens de São Vítor, com um discurso político em defesa dessa dignidade eclesiástica da cidade dos arcebispos. É de tal ordem a importância do assunto que o mesmo D. Rodrigo da Cunha dedicou um tratado histórico específico ao primado de Braga sobre todas as arquidioceses de Espanha (Tractatus de Primatu Bracharensis Ecclesiæ in Universa Hispania, 1632).

Nas suas crónicas, D. Rodrigo da Cunha retoma o argumento de que o apóstolo São Tiago transformou Braga na primeira cidade cristã depois dos territórios da Palestina, um precedente que a distingue entre todas da Europa:

Isto é ser ela a primeira que recebeu a Fé de Cristo Senhor Nosso, depois das Províncias de Palestina. Cousa certa é que a glória e grandeza das cidades do mundo, depois de vir a ele Cristo Senhor Nosso não consiste só nos antigos troféus ou arcos triunfais; não nos capitães valorosos, que com suas proezas mereceram triunfos dignos de imortalidade; não nos paços, e edifícios suntuosos; mas em seus cidadãos haverem sido os primeiros, que deram os nomes a Cristo, aceitaram a sua Fé; militaram em sua bandeira.

O programa dos azulejos patrocinados pelo arcebispo D. Luís de Sousa é assim uma revivescência da tradição nacionalista da historiografia portuguesa do século XVII.

O festival de Ceres, Gabriel del Barco, c. 1691.
O festival de Ceres, Gabriel del Barco, c. 1691.

Também para o coro alto, Gabriel del Barco desenhou um grande friso que envolve o óculo com um envoltório de folhas de acanto marcadas por vigorosos atlantes. Esse projeto ornamental atualizado nos relembra da relativa independência dos programas decorativos em relação aos projetos arquitetónicos.

Como revelação de um certo experimentalismo dessa primeira fase figurativa, a encomenda dos azulejos, provavelmente realizada em 1691, já depois da morte do arcebispo e do arquiteto, sofreu alguns contratempos, e os azulejos só foram colocados entre os anos 1692 e 1694, pelo ladrilhador João Neto da Costa, após uma disputa entre os cónegos da Sé de Braga com o mestre António Antunes (act.1676-1709) que “não quis vir e não enviou as medições até hoje”.

Nesse caso, o conflito demonstra o papel do pintor de azulejos na articulação global da encomenda, papel que será disputado com os ladrilhadores nas próximas décadas, justamente pela necessidade de executar um plano detalhado que relacione cada painel figurativo – e, portanto, cada azulejo – com um espaço arquitetónico predeterminado.

BIBLIOGRAFIA ESSENCIAL

CUNHA, Rodrigo da. Primeira Parte da Historia Ecclesiastica dos Arcebispos de Braga e dos Santos e Varoens Illustres que florescerão neste Arcebispado. Braga: Manuel Cardoso, 1634.

MONTEIRO, João Pedro (ed.). Um gosto português. O uso do azulejo no século XVII. Lisboa: Museu Nacional do Azulejo, Athena, 2012. ISBN 978-989-31-0030-1.

Braga, Igreja de São Vítor

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s