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Ciência Filosofia

Os quatro elementos do Universo

A construção da torre octogonal, custeada pelo professor António Franco, foi uma oportunidade única para o desenvolvimento de um programa iconográfico inovador, sem as restrições que a tradição impunha a outras áreas do Colégio do Espírito Santo.

A torre octogonal é uma câmara que liga os quatro corredores dos edifícios da Universidade de Évora. A construção foi custeada por António Franco, professor de latim e retórica, e constituiu uma oportunidade para a inovação, já que o professor jesuíta pôde elaborar um programa iconográfico sem as restrições que a tradição impunha a outras áreas do Colégio, como a aula magna, a biblioteca ou as salas de aula.

As obras começaram em 1726, mas os azulejos foram colocados apenas no início da década de 1740 e, portanto, provavelmente encomendados após a morte de António Franco, falecido em 1732.

A cúpula, com quatro grandes janelas, trouxe uma nova fonte de luz a essa zona de cruzamento e, no topo, quatro anjos policromados de terracota – exibindo o brasão do arcebispo D. Henrique, o da Companhia de Jesus, o da Casa Real Portuguesa e o da cidade de Évora – representam as principais instituições responsáveis ​​pela fundação da universidade.

Anjo com um escudo e cristograma da Companhia de Jesus, c. 1740. Fotografia © Teresa Verão.

Embaixo, nas paredes, os painéis de azulejos, em azul e branco, representam a água, a terra, o ar e o fogo. Esses elementos são os conceitos fundamentais da física aristotélica para definir o processo de transformação da matéria. Claro que tal ideia está também presente no Comentário aos oito livros de física, escrito, nos finais do século XVI, pelo professor jesuíta Manuel de Góis, que sublinhou a presença de uma propriedade criativa como característica essencial dos elementos naturais:

Isto porque os elementos podem ser vistos como tendo uma sede certa e definida no mundo, para a qual são direccionados por uma propensão inacta ou por um movimento próprio; ou então, como sendo os primeiros corpos passíveis de geração e corrupção, que proporcionam a todos os outros corpos sublunares a causa do nascimento e da morte.

Nos painéis de azulejos, os elementos essenciais da natureza, identificados pelos títulos nas cartelas, estão simbolizados por deuses da mitologia clássica. A água é personificada por Neptuno, o deus do mar, o ar por Éolo, o guardião dos ventos, o fogo pelo todo-poderoso Júpiter e a terra por um trio de divindades: Cibele, Ceres e Baco.

Étienne Baudet, Element de l'Air, 1695
Étienne Baudet, Element de l’Air, 1695. © Rijksmuseum.

Para representar os temas mitológicos, o pintor de azulejos usou livremente uma série de gravuras de Étienne Baudet, estampadas em 1695. Por sua vez, o gravador francês, renomado membro da Real Academia de Paris, reproduziu uma famosa série de pinturas do bolonhês Francesco Albani, as quais hoje se encontram na Galleria Sabauda de Turim.

No mesmo período, a Grande Oficina de Lisboa, que reuniu os pintores Nicolau de Freitas, Joaquim de Brito e Silva, Valentim de Almeida, Sebastião de Almeida e José dos Santos Pinheiro, também criou os azulejos para a Aula da Esfera do colégio jesuíta de Santo Antão-o-Novo, em Lisboa.

Como um discurso retórico, a decoração da torre de António Franco faz uso da personificação, alegoria e metáfora adaptadas à linguagem visual. Enriquecidos pelo apelo da mitologia clássica, os painéis de azulejos e os quatro anjos heráldicos funcionam como uma metáfora, e o arcebispo de Évora, a Companhia de Jesus, a Casa Real Portuguesa e a cidade de Évora são comparados e qualificados como os elementos criativos e transformadores do Universo, ou melhor, da Universidade de Évora.

É um programa relativamente simples, mas com a particularidade de se apresentar como uma representação simbólica da universidade jesuíta de Évora. Na sua simplicidade, utilizando os conceitos básicos da física aristotélica, o conjunto é também uma aula na melhor tradição didática jesuíta.

BIBLIOGRAFIA ESSENCIAL

CARVALHO, Mário Santiago  (ed.). Comentários a Aristóteles do Curso Jesuíta Conimbricense (1592-1606). Antologia de textos. Introdução de Mário Santiago Carvalho. Tradução de A. Banha de Andrade, Maria da Conceição Camps, Amândio A. Coxito, Paula Barata Dias e Felipe Medeiros. Coimbra: Editio Altera: LIF – Linguagem, Interpretação e Filosofia, 2011.

MANGUCCI, Celso. Universo, Universidade. O enigma dos azulejos da torre octogonal do Colégio Jesuíta de Évora in Biblioteca DigiTile: Azulejaria e Cerâmica on line, coordenação de Susana Varela Flor. Lisboa, ARTIS – Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian e Fundação para a Ciência e a Tecnologia, 2015.

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