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Deem-me um ponto de apoio e moverei o mundo

No conjunto que decora a Aula da Esfera do Colégio de Santo Antão-o-Novo, em Lisboa, o painel com a representação de um sistema de engrenagens que ergue a Terra é um bom exemplo da representação do conhecimento científico nos azulejos do século XVIII.

No conjunto que decora a Aula da Esfera do Colégio de Santo Antão-o-Novo, em Lisboa, o painel com a representação de um sistema de engrenagens que ergue a Terra, juntamente com a imagem das naus portuguesas, é um dos bons exemplos da transposição de uma cultura erudita para a azulejaria setecentista. É também um óptimo exemplo da forma como os iconógrafos criavam um novo emblema a partir da tradição.

Fac pedem figat, et terram movebit. Imago primi saeculi Societatis Iesu, 1640. ©  Getty Research Institute
Fac pedem figat, et terram movebit. Imago primi saeculi Societatis Iesu, 1640. © Getty Research Institute.

A figura do anjo que faz mover as engrenagens repete um emblema da obra Imago Primi Saeculi Societatis Iesu. Para ajudar a identificar o tema, a figura era acompanhada pela famosa frase atribuída ao filósofo grego Arquimedes, Fac pedem figat, et terram movebit [Deem-me um apoio para os pés, e moverei a Terra].

Com bem identificou o historiador Michael Gorman,  o emblema da obra Imago Primi Saeculi Societatis Iesu apropria-se de um desenho que ilustrava uma das palestras públicas apresentadas por Christoph Grienberger, o emérito professor do Collegio Romano, na qual calculava que, com a reunião em sequência de 24 engrenagens, mesmo que o globo terrestre fosse composto exclusivamente de ouro, poderia ser deslocado pela força de uma pequena moeda de um talento.

Terra auream, talenti potentia movere. Pontificia Università Gregoriana ©
Terra auream, talenti potentia movere. © Pontificia Università Gregoriana.

Dessa forma, uma experiência científica foi transferida para o universo erudito dos emblemas, numa comparação metafórica com a atividade da Companhia de Jesus, a principal responsável pela conversão cristã de reinos e comunidades em todo o mundo.

Nos azulejos, em Lisboa, como não podia deixar de ser, o emblema recebeu um desígnio nacional com o acréscimo das naus e o conhecido verso d’Os Lusíadas de Luís de Camões: “por mares nunca d’antes navegados”.

Grande Oficina de Lisboa. Joaquim de Brito e Silva, c. 1745. Aula da Esfera do Colégio de Santo Antão-o-Novo. © CM
Por mares nunca d’antes navegados. Grande Oficina de Lisboa. Joaquim de Brito e Silva, c. 1745. Aula da Esfera do Colégio de Santo Antão-o-Novo. Fotografia © CM.

Com alguma justiça histórica, já que no princípio da sua carreira, Christoph Grienberger deu aulas na Aula da Esfera, em Lisboa, um ponto de passagem quase obrigatório para os matemáticos jesuítas no esforço missionário por todos os continentes.

BIBLIOGRAFIA ESSENCIAL

BOLLAND, Johannes; TOLLENAERE, Jean de; HOSSCHE, Sidronius de; WALLE, Jacques van de & FRUYTIERS, Philip. Imago Primi Saeculi Societatis Iesu: a prouincia Flandro-Belgica eiusdem Societatis repraesentata. Antuérpia: Balthasaris Moreti, 1640.

GORMAN,  Michael John. Mathematics and Modesty in The Society Of Jesus. The Problems of Christoph Grienberger (1564-1636) in The New Science and Jesuit Science: Seventeenth Century Perspectives. Edição de Mordechai Feingold. Dordrecht: Kluwer, 2003, pp. 1-120.

LEITÃO, Henrique. A ciência na «Aula da Esfera» no Colégio de Santo Antão 1590-1759. Lisboa: Comissariado Geral das Comemorações do V Centenário do Nascimento de São Francisco Xavier, 2007.

Lisboa, Aula da Esfera

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