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A Grande Oficina de Lisboa

A Grande Oficina de Lisboa foi uma sociedade informal de mestres pintores e olarias da capital criada pelo mestre ladrilhador Bartolomeu Antunes (1688-1753), que tinha por primeiro objetivo realizar todas as obras das quintas e dos palácios reais.

A Grande Oficina de Lisboa foi uma sociedade informal de mestres pintores e olarias da capital criada pelo mestre ladrilhador Bartolomeu Antunes (1688-1753), que tinha por primeiro objetivo realizar todas as obras de azulejos das quintas e dos palácios reais, particularmente as supervisionadas pela Casa de Repartição das Obras.

Para realizar esse grande volume de obras, Bartolomeu Antunes associou-se ao irmão, João Antunes, e ao sobrinho, João Nunes de Oliveira, também mestres ladrilhadores. Com essa estratégia de sucesso, Bartolomeu Antunes viria a dominar a produção de azulejos em Lisboa, no segundo quartel do século XVIII. 

A principal característica dessa organização informal foi a de agregar a obra de vários pintores e olarias sem constituir uma unidade industrial única, algo que contrariava o princípio de independência dos vários profissionais e, ao mesmo tempo, implicava uma solidariedade de contas que os intervenientes consideravam desvantajoso a longo prazo.

Por outro lado, ainda que os pintores e oleiros colaborassem com o mestre ladrilhador Bartolomeu Antunes na Grande Oficina de Lisboa, mantinham a sua autonomia, com relações independentes com outros mestres ladrilhadores, geralmente responsáveis por obras menos importantes.

Até onde se pode saber, o grande ausente dessa estrutura lisboeta foi o pintor Teotónio dos Santos (1688-1762), que, na documentação conhecida, não estabeleceu nenhuma forma de colaboração com Bartolomeu Antunes.

Depois de Bartolomeu Antunes, foi o seu genro, o pintor Nicolau de Freitas (1703-1765), quem mais beneficiou com a criação da Grande Oficina, responsabilizando-se pelos núcleos mais importantes e bem pagos do convento de São Francisco da Bahia (capela-mor da igreja e claustro inferior), do palácio convento de Nossa Senhora das Necessidades (aula magna e pequeno claustro), e pela galeria da “nova” Igreja Patriarcal, destruída pelo grande terramoto. Como demonstra o inventário post-mortem de Bartolomeu Antunes, o pintor recebeu a quantia de trinta mil réis por milheiro pelos azulejos pintados para esta igreja, uma soma bastante superior às remunerações conhecidas do pintor Valentim de Almeida (1692-1779).

Bartolomeu Antunes, 1736
Marca do mestre ladrilhador Bartolomeu Antunes, 1736. Fotografia © CM.

O principal colaborador de Nicolau de Freitas, nas campanhas realizadas por Bartolomeu Antunes, foi o pintor Joaquim de Brito e Silva (1716-1782), provavelmente seu aprendiz entre os anos de 1735 e 1740.

Em 1754, quando reclamou dívidas ao mestre ladrilhador Bartolomeu Antunes, Joaquim de Brito dirigia uma pequena oficina na companhia de três jovens pintores – Manuel António de  Góis (1730-1790), Eusébio da Silva (c.1735-act.1754) e o sobrinho Sebastião Vieira (c.1730-act.1754) –, que foram unânimes em declarar que o pintor realizara muitas obras de azulejo para o mestre ladrilhador.

No âmbito das múltiplas parcerias estabelecidas pela Grande Oficina, Nicolau de Freitas pintou os azulejos da escadaria nobre, Joaquim de Brito os da Aula da Esfera e Valentim de Almeida os do átrio da sacristia do Colégio de Santo Antão-o-Novo, num conjunto realizado entre os anos de 1740-1750.

Nesse mesmo ciclo, Joaquim de Brito, José dos Santos Pinheiro (1714-1783), Valentim de Almeida e Sebastião de Almeida (1727-1779) realizaram a monumental campanha de azulejos para os muros e bancos do tanque da Quinta Real de Queluz, documentados nos recibos do mestre ladrilhador João Nunes Oliveira, em 1755.

Grande tanque da Quinta Real de Queluz, 1755. © Teresa Verão.
Grande tanque da Quinta Real de Queluz, 1755. Fotografia © Teresa Verão.

Depois da morte de Bartolomeu Antunes, em 1753, e da crise económica provocada pelo grande sismo de Lisboa, em 1755, os pintores de azulejo Sebastião de Almeida, José dos Santos Pinheiro, Valentim de Almeida, Joaquim de Brito e Silva e Bernardo José de Sousa (1738-act.1790) criaram uma sociedade de pintores de azulejo. Na verdade, essa nova sociedade não fez mais do que confirmar as relações profissionais anteriormente estabelecidas pela oficina de Bartolomeu Antunes, desta vez para defender os interesses dos pintores de azulejo contra a constante diminuição dos preços pagos por parte dos mestres ladrilhadores pela pintura dos azulejos.

Ativa entre os anos de 1764 e 1769, a sociedade não criou uma unidade industrial única, antes permitiu a colaboração com as diversas olarias e, mesmo, com diversos ladrilhadores, desde que os pintores cobrassem um preço mínimo pela pintura dos azulejos.

Mais importante, criou-se uma linha de continuidade entre vários pintores, que agora passavam a ser liderados por Sebastião de Almeida. Nesse período, como consequência direta desse tipo de organizações profissionais, os pintores de azulejo permaneciam anónimos, não identificando os conjuntos com as suas assinaturas.

BIBLIOGRAFIA ESSENCIAL

MENDES, Rui. Companhias de azulejadores e de pintores de azulejos activas em Lisboa entre 1757 e 1773: novos contributos para o estudo da produção de azulejos no período pombalino. ARTis ON, n. 6, junho de 2018, pp. 45-59.

MANGUCCI, Celso. “A Estratégia de Bartolomeu Antunes: mestre ladrilhador do Paço (1688-1753)”. Al-Madan – Arqueologia, Património e História Local, n. 12, 2003, pp. 135-148.

MANGUCCI, Celso. História da Azulejaria Portuguesa, Iconografia e Retórica. Tese de doutoramento. Évora: Universidade de Évora, 2020. https://dspace.uevora.pt/rdpc/handle/10174/28727

Lisboa, Quinta Real de Queluz

2 replies on “A Grande Oficina de Lisboa”

Meu Caro Celso
Boa noite e muito obrigado pelas importantes e consistentes informações que têm vindo a ser disponibilizadas. São, de facto, um conjunto de novas informações extremamente significativas.

Entretanto, pergunto se existem estudos sobre os azulejos do palácio conde de Atalaia e marquês de Tancos, situado na costa do castelo, em Lisboa.

Desejando que este ano traga muitas notícias agradáveis, envio um abraço
Francisco

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De: Portuguese Tiles
Enviado: 3 de fevereiro de 2021 19:53
Para: Francisco d’Orey Manoel
Assunto: [New post] A Grande Oficina de Lisboa

Celso Mangucci posted: ” A Grande Oficina de Lisboa foi uma sociedade informal de mestres pintores e olarias da capital criada pelo mestre ladrilhador Bartolomeu Antunes (1688-1753), que tinha por primeiro objetivo realizar todas as obras de azulejos das quintas e dos palácios r”

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Francisco
O conjunto de azulejos do Palácio dos Marqueses de Tancos é bastante referenciado pela assinatura do pintor Raimundo do Couto.
Há também azulejos atribuídos a Gabriel del Barco e António de Oliveira Bernardes, mas não conheço um estudo que abarque todo o conjunto.
A Ana Paula Correia, na revista Oceanos, tem um texto sobre a sala com a representação de episódios da Mitologia Clássica.
Tudo de bom
Celso

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