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A vida breve nos emblemas de António de Sousa de Macedo

Os emblemas concebidos pelo diplomata e poeta António de Sousa de Macedo (1606-1682) radicam numa profunda tradição humanista, que tem por fim último conferir um discurso erudito à arquitetura.

Pelo menos desde 1653, Sousa de Macedo possuía um oratório privado do lado direito da capela-mor da igreja do Convento de Nossa Senhora de Jesus, em Lisboa. Como se pode comprovar por uma planta dos finais do século XVIII, o diplomata podia entrar diretamente para a capela por uma porta reservada e, depois das suas orações, aceder diretamente ao transepto da igreja para comungar. Podia ainda, por outra porta, passar ao claustro, para um silencioso passeio com seus pensamentos.  

Com um retábulo com a imagem de Jesus Cristo crucificado, o oratório, pensado como um memento mori, foi idealizado muito tempo antes da proximidade da morte de Sousa de Macedo, como o próprio fez questão de deixar gravado para a posteridade:

Planta e alçados da capela e do jazigo de António de Sousa de Macedo. Joaquim de Oliveira [?], último quartel do século XVIII. Biblioteca Nacional de Lisboa.
Planta e alçados da capela e do jazigo de António de Sousa de Macedo. Joaquim de Oliveira [?], último quartel do século XVIII. Biblioteca Nacional de Lisboa.

Tratando da morte no melhor tempo da sua vida, fundou, armou e dotou esta capela para si e sua mulher D. Mariana Lemercier e seus descendentes, com trinta mil réis de renda cada ano para uma missa quotidiana perpétua e ofício de nove lições no oitavário dos defuntos, e mais seis mil réis de renda para a fábrica e com outra renda para merceeiros.

Os emblemas pintados nos azulejos da abóbada fazem parte da melhor tradição da emblemática humanista latina quinhentista, e foram criados em diálogo com as coletâneas publicadas por Andrea Alciato (1531), Pierio Valeriano (1556), Juan de Borja (1581), Juan de Horozco y Covarrubias (1589) e Hernando de Soto (1599).

Transpostos para o discurso arquitetónico, os conceitos sobre a brevidade da vida criados pelo poeta lusitano fazem parte da estratégia de afirmação da imagem social impoluta do letrado, formado em leis em Coimbra, que viria a ser secretário de Estado do curto reinado de Afonso VI.

Como elemento introdutório do programa decorativo, Sousa de Macedo transformou os versos do primeiro canto da sua epopeia Ulyssippo, composta em louvor às origens míticas da pátria, em dois emblemas que mandou colocar sobre as portas principais da capela, envoltos em cartelas com elaborados enrolamentos.  No primeiro, numa revelação de uma elipse metafórica dos versos do primeiro canto, a instabilidade da vida humana foi representada pelo jogo do pião que, ao girar no solo, acaba por impedir a continuidade do seu próprio movimento:

Trabalha o homem e anhelante aspira/ A gloria que o desejo lhe afigura/ Sendo o jogo pueril que enquanto gira/ vai cavando a si mesmo a sepultura.

De forma complementar, os versos continuam na porta em frente, que abre para o transepto da igreja, onde a incerteza da vida é comparada à vela que consome a si mesma:

Quanto melhor fisera se advertira;/ que a vida vai morrendo no que dura./ Ah, peito humano de cobiça enfermo, a quem pequena cova he largo termo.

O programa iconográfico que Macedo elaborou para o oratório colocou a figura do Sol no centro, para reforçar a ideia de comparação com as quatro virtudes cardeais dos emblemas em cada um dos cantos. A reflexão sobre a morte ajuda-nos a reconhecer a Justiça, mesmo nos casos mais difíceis (a morte da flor na plenitude da beleza e da juventude); a enfrentar, com Fortaleza, os reveses da Fortuna (as folhas arrebatadas pelo vento); a cultivar a Temperança e a harmonia das paixões (música); e a discernir com Prudência mesmo perante assuntos mais nebulosos (nuvem de vapor).

Seguindo os mais abalizados autores, a originalidade do programa não está na criação individual dos emblemas, mas na composição do discurso iconográfico, um pouco à semelhança de como o próprio Macedo, na sua obra Eva e Ave, caracteriza a orgânica do livro como sendo original:

LUCENDO ENDIT IN OCCASUM. Oratório do Convento de Jesus, c. 1653. Fotografia © Teresa Verão.

Mas porque não he licito aos pays negar os filhos, posto que defectuosos: confesso que a architetura he minha, & que me parece que nella sírvo; como as abelhas fabricando do alheyo, servem mais que as aranhas tecendo do próprio.

Nesse período, numa significativa simbiose, as decorações dos livros são emprestadas da arquitetura, assim como os emblemas de António de Macedo utilizam as cartelas da obra de Juan de Borja ou as sugestões da forma como as filacteras se envolvem com as imagens da obra de Horozco y Covarrubias, numa campanha de azulejos que se destaca pela qualidade entre a produção mais ingénua do período.

BIBLIOGRAFIA ESSENCIAL

HOROZCO Y COVARRUBIAS, Juan de. Emblemas morales de don Juan de Horozco y Covarruvias. Saragoza: Alonso Rodríguez, 1604.

MACEDO, António de Sousa de. Ulyssippo: poema heroico de Antonio de Sousa de Macedo. Lisboa: Antonio Alvarez, 1640.

MACEDO, António de Sousa de. Eva, e Ave, ou Maria triunfante: theatro da erudiçam, & filosofia Christa: em que se representaõ os dous estados do mundo: cahido em Eva, e levantado em Ave: primeyra, e segunda parte. Lisboa, 1700 [1ª ed., 1676].

MANGUCCI, António Celso & RODRIGUES, Paulo Simões. “Memento Mori. Os emblemas do iconógrafo António de Sousa de Macedo para o oratório de Jesus”. In  ANDRÉ, Paula  (ed.). Antologia de Ensaios – Laboratório Colaborativo: Dinâmicas Urbanas, Património, Artes. VI Seminário de investigação, ensino e difusão. Lisboa: DINÂMIA’CET-ISCTE, 2021.

Igreja do Convento de Nossa Senhora de Jesus, Lisboa

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