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A caça no Novo Mundo

Nas quintas e palácios, foi comum a existência de salas decoradas com caçadas, um dos temas mais recorrentes da azulejaria figurativa de seiscentos e setecentos.

Em Portugal, nas quintas e palácios da nobreza, foi comum a decoração de salas com painéis de cenas de caça, provavelmente um dos temas mais recorrentes da azulejaria figurativa de seiscentos e setecentos.

Apreciadas como um entretenimento nobre, as caçadas gozavam de grande apreço por serem consideradas um exercício para a formação do cavaleiro, tanto para o desenvolvimento das virtudes morais como para o aperfeiçoamento da destreza física. No seu ensaio sobre a educação da nobreza, publicado em 1734, em tempo de renovação das ideias sobre a pedagogia em Portugal, D. Martinho de Mendonça de Pina e Proença, um multifacetado intelectual da corte de D. João V, fez questão de retomar a defesa das caçadas como parte da formação militar dos verdadeiros patriotas:

A caça, ainda que hoje não seja tão propria imitação da guerra, como nos primeiros seculos, em que mal povoadas as Provincias, e impenetraveis os bosques, offerecião para segurança dos povos, a quem as feras infestavão, emprezas heroicas aos Hercules; com tudo fortifica tanto o corpo, costumando-o ao trabalho, à calma, e ao frio, que na paz he o mais proprio exercicio, de quem tem herdada obrigação de vestir o arnez. Nao he bom Cidadão, quem não procura fazer-se habil para defender a sua patria…

Leopard hunting with mirrors. Olarias de Lisboa, c. 1660-1670. Museu Nacional do Azulejo nº 137
Caça ao leopardo com espelhos. Olarias de Lisboa, c. 1660-1670. © Museu Nacional do Azulejo nº 137.

Ao mesmo tempo, existia na sociedade algum desconforto com a morte violenta dos animais pela mão dos homens, uma prática considerada desde a Antiguidade responsável pela formação de indivíduos maus e impiedosos, propensos a comportamentos antissociais. Entre os argumentos negativos de vária ordem, os caçadores estariam particularmente inclinados a esquecerem-se da economia do lar, com o desperdício de tempo para fins mais úteis e gastos excessivos na preparação e manutenção dos cavalos e dos cães de caça.

Manuel Severim de Faria, chantre da Sé de Évora e notável escritor, reconhecido pela biografia do poeta Luís de Camões e pelas Notícias Históricas de Portugal, dedicou um excelente ensaio ao tema, onde relembrou, entre as razões desfavoráveis, que o isolamento dos caçadores poderiam torná-los inábeis para a vida política e que, seguindo a opinião de Santo Agostinho, os clérigos não só estavam proibidos de caçar, como deveriam perder o direito ao sacerdócio se o fizessem.

Leopard hunting with mirrors. Venationes Ferarum, avium, piscium pugnae Bestiariorum. Jan Collaert II after Jan van der Straet, 1594-1598. Rijksmuseum: RP-P-BI-6118
Leopard hunting with mirrors. Venationes Ferarum, avium, piscium pugnae Bestiariorum. Jan Collaert II after Jan van der Straet, 1594-1598. © Rijksmuseum: RP-P-BI-6118.

Preocupado em construir uma posição moderada, que pudesse conciliar a caça com o exercício militar, o chantre de Évora retomou a argumentação do filósofo grego Aristóteles no seu tratado sobre a política onde, seguindo uma ordem natural primeva, os homens caçavam os animais ferozes de forma justa, para prover a segurança, a alimentação e o vestuário:

Della foi inventora, quasi a mesma natureza, porque vendo os homens em seus principios o dano, que dos animaes bravos recebiam, & achando-se juntamente faltos de mantimentos, & reparos, com que se sustentassem, & defendessem o corpo das injurias do tempo, perseguião os animaes, para sua segurança, sustentação, & vestido, como hoje fazem os mais dos habitadores do novo mundo, & por isso diz o Filosofo, que he esta caça natural, & justa…

Como podemos admirar num painel de azulejos proveniente da Quinta da Cadriceira, no Turcifal, agora em exposição no Museu Nacional do Azulejo, a caça ao leopardo realizava-se com armadilhas e espelhos, num artifício que convoca o sentido heróico das caçadas primitivas. Baseado numa série de gravuras realizada a partir de desenhos de Jan van der Straet, os primitivos homens da América, vestidos com saiotes de penas, armados com arcos e bastões, foram copiados de uma segunda estampa, onde se representava a pesca com o auxílio de pelicanos, uma técnica afamada entre os pescadores chineses.

Catching fish with pelicans. Venationes Ferarum, avium, piscium pugnae Bestiariorum. Jan Collaert (II) after Jan van der Straet, 1634. Rijksmuseum: RP-P-2000-161
Catching fish with pelicans. Venationes Ferarum, avium, piscium pugnae Bestiariorum. Jan Collaert (II) after Jan van der Straet, 1634. © Rijksmuseum: RP-P-2000-161.

Num tempo em que a caça já era praticada em coutadas artificiais, e quando os animais ferozes não constituíam mais uma ameaça, a representação das caçadas num tempo primitivo, ainda que de maneira fantasiosa, aproxima-se da verdadeira justificação da caçada como preparação para a guerra justa, de autodefesa da pátria, contra o perigo da subjugação e da perda da liberdade.

BIBLIOGRAFIA ESSENCIAL

FARIA, Manuel Severim de. Discursos varios politicos. Évora: Manoel Carvalho, impressor da Universidade, 1624.
PROENÇA, Martinho de Mendonça de Pina e. Apontamentos para a educação de hum menino nobre. Lisboa: Officina de Joseph Antonio da Sylva, 1734.

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