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A olaria da Rua da Madragoa

A olaria da Rua da Madragoa pertencia ao conjunto de pequenas unidades fabris que formavam o núcleo oleiro das freguesias lisboetas de Santos-o-Velho e Santa Catarina.

A olaria da Rua da Madragoa pertencia ao conjunto de pequenas unidades fabris que formavam o núcleo oleiro das freguesias lisboetas de Santos-o-Velho e Santa Catarina.

Uma das mais importantes unidades do conjunto, com produção de azulejos durante mais de um século, a olaria situava-se junto à cerca do Convento de Nossa Senhora da Soledade, mais conhecido como Trinas do Mocambo, e é possível identificá-la com clareza no painel da Grande Vista de Lisboa do Museu Nacional do Azulejo.

Podemos comprovar a produção de azulejos através da continuidade familiar que se prolonga por três gerações, com princípio no mestre oleiro Bernardo Francisco (1677-1743), seguido pelo filho Francisco de Sales (1707-1763), e pelo neto, o pintor de azulejos Veríssimo Xavier de Sales (1736-act.1772). Na última fase, marcada pela concorrência com a Real Fábrica de Louça, a olaria da Rua da Madragoa será gerida pelo marido da neta, o oleiro Joaquim José Henriques (1726-1785).

Na gestão dessas pequenas unidades industriais era praticamente obrigatório que as olarias colaborassem com outras unidades nas grandes encomendas de fornecimento de azulejos para palácios e conventos.  Bernardo Francisco e seus sucessores vão privilegiar a colaboração com a vizinha olaria da Rua do Guarda-mor, gerida pelo cunhado, o mestre oleiro António Gonçalves (act.1694-1719).

O pintor de azulejos Valentim de Almeida estabeleceu um longo vínculo de colaboração com a olaria da Rua da Madragoa e, ainda no início de carreira, foi padrinho de uma filha de Bernardo Francisco, em 1714, naquela que é a primeira ligação documentada do pintor ao meio oleiro da capital.

A mudança da família do pintor para Santos-o-Velho foi resultado da encomenda que Valentim de Almeida realizou, nas olarias da Madragoa, para o claustro inferior da Sé do Porto, com os pagamentos efetuados entre 1729 e 1730.

De 1731 a 1738, Valentim de Almeida foi vizinho da olaria da Rua do Guarda-mor, ao tempo dirigida pelos descendentes do mestre oleiro António Gonçalves, liderados pelo filho Cláudio Gonçalves (1708-1754).

Vista panorâmica de Lisboa, atribuída a Gabriel del Barco, c. 1700. Museu Nacional do Azulejo. Fotografia © DGPC.

Tudo indica que, em colaboração com Francisco de Sales, filho mais velho e sucessor de Bernardo Francisco, Valentim de Almeida e o genro Sebastião Gomes Ferreira realizaram os azulejos para as aulas do Colégio do Espírito Santo de Évora, entre os anos de 1744 e 1749.

Além da cozedura, os pintores de azulejo dependiam dos mestres oleiros para o fabrico das tintas cerâmicas, com a frita ser moída nos moinhos das olarias. É possível que houvesse algum grau de intervenção dos pintores na manipulação dos óxidos e vidrados, uma vez que, tradicionalmente, a elaboração das tintas pertencia ao âmbito das competências profissionais da classe, e deveria haver uma certa adaptação ao estilo de trabalho de cada pintor.

Em 1752, acompanhando o retorno da policromia, Valentim de Almeida, em parceria com o filho Sebastião de Almeida, pintou os azulejos para o Oratório da Quinta da Piedade da Póvoa de Santa Iria, em Vila Franca de Xira, uma obra singular pela qualidade dos vidrados de várias cores, realizada em colaboração com o mestre oleiro Cláudio Gonçalves, da olaria da Rua do Guarda-mor.

Acompanhando o crescente interesse pela encomenda de azulejaria seriada, a olaria da Madragoa foi dirigida pelo pintor de azulejos Xavier Veríssimo de Sales, neto de Bernardo Francisco, com uma produção associada ao mestre ladrilhador António Manuel Godinho, que concedeu um empréstimo para a fábrica em 1771.

Na última fase dessa extensa dinastia familiar, o mestre oleiro Joaquim José Henriques, genro de Sales, associou-se ao mestre ladrilhador Francisco Jorge da Costa (1749-1829) e ao pintor Bernardo José de Sousa (1738-act.1790), e  foi provavelmente na olaria da Rua da Madragoa que se fabricaram os azulejos para a Sala das Mangas da Quinta Real de Queluz, em 1784, marcados por uma excelente qualidade técnica na execução dos vidrados.

BIBLIOGRAFIA ESSENCIAL

MANGUCCI, Celso. “Olarias de louça e azulejo de Santos-o-Velho dos meados do século XVI aos meados do século XVIII ” in Al-madan, n. 5, 1996, pp. 155-168. ISSN 0871-066X.

Lisboa, Museu Nacional do Azulejo

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