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A originalidade do pintor de azulejos

Na Igreja da Misericórdia de Évora, para ampliar o efeito ilusório que envolve os espectadores, o pintor de azulejos António de Oliveira Bernardes criou uma continuidade do campo visual que une os vários episódios da vida de Jesus.

Na Igreja da Misericórdia de Évora, o modelo do programa decorativo articula a talha dourada, os azulejos e as telas a óleo, para criar uma arquitetura em trompe-l’œil, cheia de alusões simbólicas. No relevo dourado da madeira, os cachos de uva e a fénix representam o sacramento da eucaristia. Nas cores das telas, os episódios bíblicos demonstram o cuidado com o próximo. No brilho azul da cerâmica, os episódios da vida de Jesus ensinam os passos para a salvação da alma.

O substancial apoio do novo arcebispo de Évora, D. Simão da Gama, que desempenhou as funções de provedor da Misericórdia, foi decisivo para a realização do projeto integral de renovação do interior da igreja, que começou pelo contrato da obra de talha dourada com o mestre Francisco da Silva, em 1710.

Lazare, veni foras. Boetius Adams Bolswert after Peter Paul Rubens, c. 1590-1633. © Rijksmuseum.
Lazare, veni foras. Boetius Adams Bolswert after Peter Paul Rubens, c. 1590-1633. © Rijksmuseum.

O programa iconográfico, como em quase todos os templos da confraria, articula as obras de misericórdia espirituais e corporais, com Cristo e Maria como os verdadeiros modelos para guiar a atividade dos irmãos da confraria.

A oficina de António de Oliveira Bernardes realizou várias outras campanhas para igrejas das confrarias de Misericórdia. Em Évora, os azulejos foram encomendados depois da conclusão da obra de Francisco da Silva, e o pintor criou as pilastras que servem de base para os atlantes na talha dourada. Sem um desenho de pormenor completo, esse tipo de organização das campanhas decorativas é o que podemos chamar de desenvolvimento orgânico, realizado em campanhas sucessivas que dão sequência às anteriores.

Os azulejos percorrem todo o comprimento da nave e, para ampliar o efeito ilusório de perspetiva que envolve os espectadores, Bernardes criou uma continuidade do campo visual que une os vários episódios.

A ressureição de Lázaro, confortar os aflitos. António de Oliveira Bernardes, 1716. Santa Casa da Misericórdia de Évora
A ressurreição de Lázaro, confortar os aflitos. António de Oliveira Bernardes, 1716. © Santa Casa da Misericórdia de Évora.

Na esquerda, o templo do qual os vendilhões foram expulsos prolonga-se num edifício que abre para o exterior, onde Lázaro, miraculosamente, ressuscitou. Para este episódio, Bernardes adaptou um gravura da obra do famoso Paul Rubens, mas inverteu os personagens da esquerda para a direita. O túmulo que antes era uma gruta, passou a estar adossado a um grandioso edifício. Os dois outros episódios com a representação do Sermão da Montanha e da Parábola do Rico Homem dão continuidade à paisagem exterior iniciada com a ressurreição de Lázaro.

É essa cuidadosa seleção dos modelos, a perfeita integração com o conjunto decorativo e a construção de um espaço pictórico envolvente que definem António de Oliveira Bernardes como o grande intérprete da pintura de azulejos em Portugal, no século XVIII.

BIBLIOGRAFIA ESSENCIAL

MANGUCCI, Celso. A escritura das imagens. A narrativa didática das obras de misericórdia. Um compromisso para o futuro. 500 anos da Iª edição impressa do Compromisso da Confraria da Misericórdia. Lisboa: Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, 2017. ISBN 978-989-8712-60-8.

Évora, Igreja da Misericórdia

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