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Letras e Literatura

O ensino da Eneida em Évora

A poesia de Virgílio foi escolhida como modelo principal para a produção literária jesuíta.

Entre os grandes poetas clássicos que deveriam guiar o aprendizado da língua latina, a poesia de Virgílio – particularmente o poema épico Eneida – foi escolhida como modelo principal e guia para boa parte da produção poética literária jesuíta.

Embora o ensino jesuíta procurasse um contacto imersivo com a língua latina, para o início do aprendizado era necessário que houvesse uma tradução dos autores clássicos.

Para os alunos de expressão portuguesa, os primeiros contactos com os versos virgilianos seriam provavelmente realizados por meio da edição comentada do professor Gaspar Pinto Correia, que elaborou uma tradução em prosa, intercalada em latim e português.

Camilla fight the Trojans. Publii Virgilii Maronis Opera, 1502, XI, folio 385, © Universitätsbibliothek Heidelberg
Camila combate os troianos. Publii Virgilii Maronis Opera, 1502, XI, folio 385. Fotografia © Universitätsbibliothek Heidelberg (CC BY 4.0).

Esse verdadeiro metatexto, em que há uma continuidade entre o texto latino, a tradução portuguesa e o comentário do contexto semântico e cultural, conheceu uma notável longevidade e contou com pelo menos cinco edições, entre os anos de 1644 e 1698.

Apesar de haver várias opções mais modernas, a escolha das gravuras para os painéis de azulejos das salas de aula da Eneida recaiu sobre uma das primeiras edições ilustradas impressas, ainda no início do século XVI, sob a direção do jurista e poeta Sebastian Brant, nascido em Estrasburgo.

Camilla fight the Trojans. Great Lisbon Workshop. Valentim de Almeida e Sebastião Gomes Ferreira, c. 1745. Colégio do Espírito Santo de Évora. © Teresa Verão
Camila combate os troianos. Grande Oficina de Lisboa. Valentim de Almeida e Sebastião Gomes Ferreira, c. 1745. Colégio do Espírito Santo de Évora. Fotografia © Teresa Verão.

No modelo fornecido aos pintores de azulejos, Eneias e os demais cavaleiros estão vestidos com roupas e armaduras quinhentistas e não propriamente romanas, as cidades assemelham-se às do norte da Europa, e as diversas ações desenvolvem-se ao mesmo tempo, sem que se estabeleça uma unidade de ação no campo visual.

Mas essas xilogravuras anónimas quinhentistas perseguem o mesmo objetivo da obra didática de Gaspar Correia, que, para facilitar a compreensão dos versos da Eneida, reconstitui a ordem narrativa da obra, com a identificação dos personagens e locais onde decorre a ação.

BIBLIOGRAFIA ESSENCIAL

MANGUCCI, António Celso. História da azulejaria portuguesa, iconografia e retórica. Tese de doutoramento, Universidade de Évora, 2020. http://hdl.handle.net/10174/28727

TOBIAS, Gisela & TOBIAS, Werner. Vergil in Évora, 2010. ISBN 978-3-8391-2211-2.

Évora, Colégio do Espírito Santo

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