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O erro do pintor de azulejos

É com alguma surpresa que podemos constatar erros nas frases em latim ou nos teoremas matemáticos nos azulejos dos colégios jesuítas.

É com alguma surpresa que podemos constatar erros nas frases em latim nos painéis de azulejos das salas do Colégio do Espírito Santo, em Évora, ou nos teoremas matemáticos nos azulejos da sala do Colégio de Santo Antão-o-Novo, em Lisboa.

Una Tribus Ratio Est. Lisbon Great Workshop. Joaquim de Brito e Silva, c.1745. Aula da Esfera
Una Tribus Ratio Est. Grande Oficina de Lisboa. Joaquim de Brito e Silva, c. 1745. Aula da Esfera.

Por exemplo, em Évora, na sala de aula da poética, a representação alegórica do género da poesia lírica foi acompanhada com uns versos de Horácio em que a forma dativa da palavra poeta (vatibus) passou a “vahbus”, enquanto a alegoria da pintura (pictura) ficou transformada em uma desconhecida “pichera”.

Na aula da Esfera, em Lisboa, foi um desenho de um teorema de Arquimedes que sofreu algumas modificações involuntárias. Na verdade, o pintor de azulejos inverteu a ordem dos sólidos geométricos do desenho da página de abertura do manual do matemático Andrea Taquet, e representou o cone no interior de um cilindro e ambos circunscritos por um círculo.

Se tivermos em conta que o ensino das duas linguagens era um objetivo primordial em cada uma das escolas, só podemos estar perante um erro dos pintores, que não souberam transpor as indicações que lhes haviam sido confiadas pelo iconógrafo responsável pela realização do programa das imagens.

Theatrum Vitae Humana. Grande Oficina de Lisboa. Valentim de Almeida e Sebastião Gomes Ferreira, c. 1745. Aula de Poética, Colégio do Espírito Santo, Évora.

De facto, em ambos os casos, são conhecimentos do domínio erudito, restrito a uma pequena elite, e não faziam parte da formação da maioria dos pintores de azulejos, que aprenderam no velho regime mesteiral das oficinas, simplesmente pela experiência.

Obviamente, os erros denotam uma falha no acompanhamento da realização da encomenda que saía das mãos do iconógrafo, passava pela supervisão da direção da Companhia de Jesus, era enviada ao mestre ladrilhador e, só por último, chegava às mãos do pintor de azulejos.

Como os painéis de azulejos não foram feitos para serem utilizados como um material didático durante as aulas e funcionavam principalmente em conjunto, como representação do plano educacional, foi mais fácil que se acabasse por aceitar essas pequenas imperfeições.

BIBLIOGRAFIA ESSENCIAL

GESSNER, Samuel & LEITÃO, Henrique. Una tribus ratio: Ikonographie der Wissensvermittlung und Selbstdarstellung der Jesuiten im Mathematiksaal des Kollegs Santo Antão in Lissabon. Math Semesterber, 62, 1–6 (2015). https://doi.org/10.1007/s00591-014-0138-0.

Lisboa, Aula da Esfera

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